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Karachi no Paquistão

Mehrgarh - Os Pioneiros do Vale do Indo

Quando pensamos no nascimento das primeiras grandes civilizações, é comum lembrar do Crescente Fértil, onde diferentes assentamentos humanos floresciam entre os rios e transformavam para sempre a história. Mas, enquanto isso acontecia no Oriente Médio, outro rio também preparava uma revolução silenciosa.

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No fértil Vale do Indo surgiram civilizações impressionantes, como a Harappa e a Mohenjo-daro, da Antiguidade. E, para entender como tudo começou, existe um lugar que fornece uma peça fundamental desse grande quebra-cabeça: Mehrgarh.

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Em uma planície no oeste do Paquistão, jazem os vestígios da civilização que pode ter sido a sociedade complexa mais antiga do mundo e que pode também ter sido a semente para as civilizações de Harappa e Mohenjo-daro tempos depois: Mehrgarh, enterrada na planície de Kacchi, na província do Baluchistão.

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Nesse local estão guardados os primeiros vestígios de agricultura, assentamento, artesanato e medicina de toda a Ásia Meridional. Descoberta em 1974 por uma equipe de arqueólogos franceses, data de 7000 a.C. É descrito como o assentamento agrário mais antigo dessa região da Ásia. A cultura de Mergar (Mehrgarh) teria alcançado seu ápice em 6.000 a.C, quando a primeira cerâmica artesanal apareceu, e o sítio arqueológico da cultura de Mergar é um dos mais importantes sítios neolíticos do mundo.

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Nas camadas mais antigas do assentamento, foram encontradas casas retangulares de tijolos de barro, dispostas com um propósito específico. Dentro delas: estruturas de barro para armazenamento de grãos, fogueiras e ferramentas esculpidas em osso e sílex. Do lado de fora, nos campos, cultivavam trigo e cevada e domesticavam o imponente gado zebu, animal ainda hoje reverenciado pelos agricultores rurais.

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Em um fragmento de tecido encontrado em um túmulo, os arqueólogos descobriram algo revolucionário: algodão. Assim, provavelmente os primeiros a fiar e usar esse material estavam nessa região.

No entanto, a descoberta mais extraordinária foi de mandíbulas humana, com molares perfurados com precisão por uma minúscula broca. Um estudo mais aprofundado revelou algo quase impensável: uma forma de odontologia cirúrgica realizada com precisão há mais de 8.000 anos.

As ossadas, cujos dentes mostraram sinais de perfuração para fins terapêuticos, seriam de um período entre 7.000 a.C. a 5.500 a.C. e são o mais antigo indício da existência de um possível tratamento dentário.

Ao todo, os cientistas identificaram 11 molares perfurados com buracos de 1,3 a 3,2 milímetros de diâmetro e uma profundidade que podia chegar aos 3,5 milímetros. Um dos indivíduos tinha três dentes perfurados e outro, duas perfurações no mesmo dente.

Uma análise microscópica revelou que os dentes continuaram a ser usados na mastigação depois da operação ter sido levada a cabo. Os pesquisadores baseiam-se na existência de vestígios de cáries em alguns dentes para afirmar que, pelo menos em parte dos casos, a perfuração era uma questão de saúde dentária. O fato de os dentes não serem facilmente visíveis coloca à parte a hipótese de as perfurações serem feitas por razões estéticas.

Os cientistas descobriram que, ao acrescentar uma ponta de sílex (uma rocha dura) a um pedaço de madeira, juntamente com um pequeno arco, usado para fazer fogo, seria possível efetuar perfurações num dente humano em menos de um minuto.

Importante destacar que Mehrgarh não estava isolada no deserto. De suas oficinas fluíam lápis-lazúli do Afeganistão, turquesa do Irã e conchas do Mar Arábico – transformadas em colares e ornamentos. Aparentemente eles gostavam de usar assessórios.

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Era uma sociedade que já comercializava, produzia artesanato e se conectava com terras distantes antes mesmo do surgimento dos faraós. Com o passar dos séculos, o povo de Mehrgarh começou a migrar para o leste, em direção às grandes planícies aluviais do Indo. Levaram consigo seus grãos, suas contas, seus potes de cerâmica e, acima de tudo, sua noção de como viver em sociedade. Com o tempo, tornaram-se os Hapappanos, construtores de Mohenjo-daro e Harappa. As cidades do Indo não surgiram do nada. Foram uma continuação, um florescimento de ideias plantadas a partir de Mehrgarh.

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Assim, muito antes das ruas de Mohenjo-daro e Harappa, que abordaremos mais adiante nessa linha do tempo, se agitarem com comerciantes, artesãos e comerciantes, o povo de Mehrgarh moldava silenciosamente o futuro do sul da Ásia. Em vez de uma rápida transformação, a história parece ser de progresso lento e constante construído por inúmeras gerações.

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Em Mehrgarh aparentemente não havia reis, templos ou tronos de ouro, mas eles oferecem ao mundo algo muito mais precioso: transformaram o ordinário em extraordinário. Um povo que plantava, curava, moldava e comercializava. Uma história de continuidade. Não de guerra, mas de habilidade, paciência e invenção gradual.

As pessoas que viviam ali não eram reis, conquistadores ou construtores de impérios. Eles eram fazendeiros, pastores, artesãos e famílias tentando ganhar a vida com a terra. No entanto, suas inovações ajudaram a moldar o futuro de uma região inteira.

Sob o solo de Mehrgarh está a história de como os primeiros agricultores do subcontinente indiano construíram comunidades permanentes, desenvolveram novas tecnologias e lançaram as bases para uma das primeiras civilizações urbanas do mundo.

Essa cultura é especialmente importante para o estudo da origem e evolução da cerâmica na região, porque ali se encontram algumas das primeiras evidências de produção cerâmica no sul da Ásia.

No início, as comunidades de Mehrgarh viviam sem o uso de cerâmica — dependiam de recipientes naturais e fibras para armazenar e transportar água e alimentos. A cerâmica aparece com clareza a partir de 5500–4800 a.C., quando o barro começou a ser moldado e cozido em objetos práticos.

As primeiras cerâmicas, por volta de 6.000a.C, eram modeladas à mão, com o uso de argilas locais misturadas a temperos como palha (para reduzir rachaduras na cozedura). As formas iniciais eram simples — tigelas, bacias e potes utilitários de armazenamento e cozimento, sem grande ornamentação.

Por volta de 5.000 a.C, a técnica evoluiu e os artesãos de Mehrgarh passaram a usar o torno de oleiro ou roda do oleiro, produzindo peças mais regulares e simétricas. Além disso começaram a revestir algumas peças com um “slip” vermelho e decorá-las com pintura preta que incluía motivos geométricos e, ocasionalmente, figuras estilizadas de animais.

Os motivos pintados e os estilos de superfície tornaram-se mais sofisticados com o tempo, refletindo tanto a especialização dos artesãos quanto o aumento da produção cerâmica em larga escala.

Os potes cerâmicos e outros recipientes encontrados em Mehrgarh desempenhavam papéis essenciais na vida quotidiana — desde o armazenamento de grãos e líquidos, ao preparo de alimentos, passando pelo uso em rituais e enterros/sepultamentos.

Sua evolução, desde formas simples e utilitárias até peças mais elaboradas e decoradas, acompanha a transição de uma sociedade agrícola incipiente para uma comunidade com ofícios especializados e comércio regional — um precursor importante das tradições cerâmicas que mais tarde floresceriam na civilização do Vale do Indo.

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Entre 4000 e 2500 a.C., a indústria de cerâmica de Mehrgarh floresceu, exportando cerâmica cinza pintada para o Irã e Afeganistão. Os artesãos também criaram estatuetas de terracota possivelmente ligadas a um culto à fertilidade.

Essas estatuetas de figuras humanas de terracota mostram principalmente figuras femininas, com formas estilizadas e ênfase em seios e quadris — símbolos ligados à fertilidade, maternidade e continuidade da vida.

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São raras as representações masculinas e tivemos a oportunidade de estar frente a frente a uma dessas raridades!!! Mais do que objetos decorativos, essas peças revelam crenças, rituais e a importância do corpo feminino nas primeiras sociedades agrícolas.

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Dicas de Viagem

Museu Nacional do Paquistão em Karachi

O Museu Nacional do Paquistão, em Karachi, é uma experiência imperdível. Por apenas 300 rúpias paquistanesas (menos de R$ 10, dependendo da cotação), é possível explorar um acervo fascinante que ajuda a compreender a antiga cultura de Mehrgarh.

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Entre as peças expostas estão cerâmicas, ferramentas de pedra, ornamentos e outros artefatos impressionantes que revelam o cotidiano dos primeiros assentamentos da região do Baluchistão. Mehrgarh é considerado um dos mais importantes sítios arqueológicos da Ásia, com evidências de comunidades agrícolas que viveram há milhares de anos, muito antes do florescimento das grandes cidades do Vale do Indo.

É uma oportunidade única para admirar de perto objetos que contam a história dos primeiros agricultores, artesãos e habitantes da região, tornando a visita uma verdadeira viagem no tempo.

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Localizado no bairro de Saddar, dentro do Burns Garden, na Shahrah-e-Kemal Atatürk (Dr. Ziauddin Ahmed Road), o Museu Nacional do Paquistão é de fácil acesso. Uma dica importante para quem pretende visitá-lo: o museu fecha às quartas-feiras. Nós acabamos cometendo esse erro no planejamento e fomos justamente em uma quarta, encontrando as portas fechadas. Achei que, por se tratar de um país de maioria muçulmana, o dia de fechamento seria a sexta-feira, mas estava enganada. Como sabíamos que o acervo era único e imperdível, reorganizamos o roteiro e voltamos no dia seguinte. A visita valeu completamente a pena.

Todo caso não esqueçam de checar o dia e horário de abertura quando planejar a sua viagem a Karachi no Paquistão.

Publicado por patipelomundo 23:44 Arquivado em Paquistão

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