Entre o incenso e o ouro: cidades perdidas da Arábia antiga
Thaj e Gerrha - 700 a.C.a 300 d.C.
10.01.2026
Por volta de 330 a.C., a região do Golfo Pérsico passou a sentir profundamente os efeitos da conquista do Império Persa por Alexandre, o Grande. Com o colapso da autoridade aquemênida e a ascensão dos reinos helenísticos, especialmente os ptolomaicos no Egito e os selêucidas na Mesopotâmia, intensificou-se um comércio marítimo de longa distância que ligava o Mediterrâneo ao oceano Índico. Navios passaram a cruzar regularmente o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, transportando especiarias, pedras preciosas, pérolas, tecidos finos e, sobretudo, incenso e mirra, produtos altamente valorizados no mundo antigo.

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Esse intenso fluxo comercial impulsionou o surgimento e a prosperidade de numerosos portos ao longo da costa da Arábia. No Golfo, o mais célebre deles foi Gerrha, considerada uma das cidades mais ricas da Antiguidade. Mencionada por autores gregos como Estrabão, Gerrha é descrita como uma cidade murada, com casas construídas em pedra e sal, e dotada de uma arquitetura sofisticada — uma imagem que contrasta fortemente com a ideia tradicional de uma Arábia exclusivamente tribal, nômade e periférica.

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Gerrha era famosa por controlar rotas comerciais estratégicas que ligavam o interior da Península Arábica aos mercados da Mesopotâmia, da Pérsia e da Índia, funcionando como um elo essencial entre o comércio terrestre e marítimo. Alguns estudiosos acreditam que a cidade tenha sido fundada por caldeus oriundos da Mesopotâmia, o que ajudaria a explicar seu alto grau de organização urbana e sua integração precoce aos circuitos econômicos internacionais. Hoje, Gerrha permanece desaparecida, conhecida apenas por meio de fontes clássicas e debates arqueológicos ainda em aberto.
Na costa oriental da Península Arábica, cidades como Thaj e Gerrha desempenharam papel central nesse sistema comercial. Thaj, em particular, revelou-se um importante centro urbano do período helenístico. Escavações arqueológicas trouxeram à luz uma tumba pertencente a uma jovem princesa, de aproximadamente 10 anos, conhecida hoje como a princesa de Thaj. A tumba era ricamente adornada com joias de ouro finamente trabalhadas, evidenciando não apenas a riqueza local, mas também o cosmopolitismo cultural da região, influenciada por tradições árabes, persas e helenísticas. O tesouro na tumba era impressionante: mais de 500 objetos feitos de ouro, prata, bronze, marfim, cerâmica e pedras preciosas. Entre as peças encontradas estavam brincos, colares, pulseiras, anéis, broches, pentes, espelhos, vasos, estatuetas e até um trono de madeira ricamente decorado com ouro e prata, evidenciando o altíssimo status social da jovem. O achado mais impactante foi uma máscara funerária de ouro puro que cobria o rosto da menina. Pesando quase um quilo, a máscara apresenta formato oval e traços faciais bem definidos, com olhos, nariz, boca e sobrancelhas cuidadosamente moldados. Trata-se de uma das raríssimas máscaras funerárias de ouro conhecidas no mundo e a única já encontrada em território saudita.

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A máscara revela uma forte influência da cultura grega, sendo muito semelhante às utilizadas por reis macedônios, como Alexandre, o Grande. Essa característica reforça a ideia de que Thaj fazia parte de um importante circuito cultural e comercial, onde tradições árabes e helenísticas se misturavam. Tudo indica que a menina pertencia a uma família real ou nobre, detentora de grande poder e riqueza e representa um testemunho extraordinário da sofisticação, diversidade e riqueza da civilização árabe antiga.
O sítio arqueológico de Thaj ainda se encontra em processo de escavação, mas muitos de seus artefatos — incluindo joias, cerâmicas e objetos rituais — estão hoje expostos no Museu Nacional da Arábia Saudita, em Riade. Esses achados reforçam a importância da Arábia Oriental como um polo dinâmico de comércio, cultura e poder no mundo antigo, muito além das margens da história clássica tradicionalmente narrada.
Publicado por patipelomundo 22:21 Arquivado em Arábia Saudita

