Os Primeiros Assentamentos Humanos
De 10 mil a 8 mil a.C – Segunda Parte
23.06.2024
Desde a época dos primeiros “homo sapiens” percebeu-se uma certa pré-disposição da espécie para o convívio social, organizando-se em famílias/grupos e evoluindo para pequenos assentamentos humanos.
Os primeiros exemplos conhecidos de assentamentos humanos começaram a parecer por volta de 10 mil a.C na região denominada de Crescente Fértil na Ásia, que se estende ao longo dos rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque, além do rio Jordão, no atual Israel, Palestina e Jordânia, formando um crescente em forma de lua. Esses rios proporcionaram solo fértil e água abundante para o cultivo de plantas como trigo e cevada, possibilitando o desenvolvimento de sociedades agrícolas complexas.
Estrada para Jerico no Crescente Fértil
Uma das discussões centrais entre os historiadores gira em torno da relação entre a agricultura e a formação dos assentamentos humanos. Alguns argumentam que foi o desenvolvimento da agricultura que possibilitou a formação de assentamentos permanentes. Com a domesticação de plantas e animais, as comunidades puderam garantir fontes estáveis de alimentação ao longo do ano, incentivando a sedentarização e o estabelecimento de locais fixos para residência.
Crescente Fértil
Por outro lado, há indícios de assentamentos humanos antes do advento da agricultura, e que esses primeiros grupos nômades já exploravam recursos naturais de maneira sustentável.
Em Tell -QARAMEL, 25 km de Alepo na Síria, por exemplo, foram descobertos cerca de 90 edifícios, numerosas lareiras e fossas, além de sepulturas humanas decoradas com contas e placas e uma rica coleção de objetos de uso diário feitos de pedras e ossos, ricamente decorados com motivos geométricos, animais e antropomórficos. O mais surpreendente é que até agora não foram encontrados vestígios de domesticação de animais ou de cultivo de cereais em um assentamento com uma cultura tão desenvolvida.
Também foram encontrados restos de uma sucessão de cinco estruturas redondas de pedra que os escavadores reconhecem como restos de torres. A parte mais antiga foi datada entre o décimo primeiro milênio e 9.670 a.C, ou seja, o local seria contemporâneo ao de Gobekli Tepe na Turquia, citado anteriormente como sendo o templo mais antigo do mundo. Esse fato leva a outra discussão entre os pesquisadores, podendo levar a crer que um dos motivos para as primeiras comunidades não tenha sido a agricultura e sim o culto ou a religião.
Também em Tell – QARAMEL na Síria foram localizados restos de 20 indivíduos adultos nas escavações. A maioria dos corpos tinha a cabeça removida por corte logo após a morte. Esse tipo de remoção da cabeça também foi atestado em outros sítios neolíticos pré-cerâmicos, como em Jericó, na Cisjordânia e em Tell Aswad na Siria, onde foram localizados nove crânios rebocados, que são considerados os mais bem preservados e mais informativos de todos esses achados no Oriente Próximo. No entanto, em 2007 devido a eclosão da guerra na Síria as escavações foram suspensas.
Tell Qaramel Siria
A primeira ideia que vem à cabeça ao pensar nesses corpos com a cabeça removida é que eles teriam sido decapitados. No entanto, os crânios encontrados eram tratados e muito bem cuidados com o intuito de serem preservados, parecendo que as pessoas queriam manter um retrato do morto. Será que essa era uma forma de não esquecer ou homenagear um ente querido? Estudiosos acreditam que eram uma espécie de culto aos crânios. Mais uma vez, dificilmente saberemos os reais motivos desses crânios encontrados nesses antigos assentamentos humanos, mas reforçam a possibilidade de formação de assentamentos humanos ao redor de lugares utilizados para cultos.
Cranios Rebocados
Já Jericó na Palestina foi um lugar pioneiro por possuir algumas das primeiras evidências de trabalho comunitário em grande escala envolvendo culturas agrícolas no seu assentamento. Provavelmente foi o lugar onde a agricultura começou a ser desenvolvida e onde pode ter ocorrido a primeira domesticação de animais em grande escala. O povo de Jericó vivia em casas circulares e cada casa teria um local de estoque da produção. Aparentemente não teriam muitas diferenciações entre as casas, indicando não haver diferenciação social.
Provavelmente o que fez Jericó ter sido o local dos primeiros assentamentos humanos com o cultivo de cereais e a domesticação de animais esteja relacionado a suas características geográficas já que o local fica em um vale com fontes de água subterrâneas, estando na região do Crescente Fértil.
Localizada no Vale do rio Jordão, Jericó está situada em uma depressão abaixo do nível do mar, o que não só a torna uma das cidades mais baixas do planeta, mas também facilita o acesso a fontes de água subterrâneas.
Jerico nivel do mar
A abundância de água subterrânea foi crucial para o desenvolvimento inicial da cidade. Em um ambiente árido e desafiador como o deserto da Judeia, as fontes de água eram escassas e muito valorizadas. Jericó, com suas nascentes e o acesso a águas subterrâneas, destacou-se como um verdadeiro oásis em meio ao ambiente árido ao redor.
Essas condições favoráveis não apenas sustentaram a vida humana, mas também atraíram assentamentos permanentes. A presença de água não apenas garantia a sobrevivência das comunidades, mas também permitia a prática da agricultura e o estabelecimento de uma economia local baseada na produção de alimentos em um ambiente de outra forma hostil.
Além das fontes de água, a localização estratégica de Jericó também desempenhou um papel importante em sua história como um dos primeiros centros urbanos. Localizada entre duas cadeias de montanhas e o Mar Morto, fica em um local naturalmente defensável.
Jerico
O primeiro assentamento permanente de Jericó foi construído próximo ao local denominado “Tell as-Sultan”, por volta de 8 300 e tinha muros ao redor do assentamento e uma torre de sete metros de altura com uma escadaria interna, que conduzia ao telhado, e com símbolos pictográficos adornando suas paredes. A princípio a torre não teria nenhuma relação com as muralhas construídas ao redor de Jerico. As muralhas podem ter sido para defesa de inimigos, mas também contra inundações repentinas que poderiam assolar a região naquela época.
Um grande mistério que permanece é em relação a função dessa torre. Especulam que poderia ser utilizada para a armazenagem de grãos já que a agricultura começou a ser desenvolvida em larga escala naquele local. Por outro lado, a escada interna da Torre de Jericó não apenas facilitava o acesso a diferentes níveis da estrutura, mas também sugere que a torre serviu como um posto de observação, podendo ter servido como local para pessoas vigiarem os arredores, detectando potenciais ameaças de inimigos ou de animais, como também um observatório de estrelas.
Os símbolos pictográficos encontrados na Torre de Jericó também têm sido objeto de estudo e debate entre arqueólogos e historiadores. Esses símbolos, que incluem figuras humanas, animais estilizados e padrões geométricos, podem ter desempenhados um papel ritualístico, religioso ou até mesmo educacional na sociedade da época. Podem ter sido usados para transmitir histórias, marcar eventos importantes, ou simbolizar a identidade cultural e étnica da comunidade que construiu a torre.
Alguns estudiosos também sugerem que a Torre de Jericó pode ter servido como um centro administrativo ou um local cerimonial, onde líderes se reuniam para tomar decisões importantes, realizar rituais religiosos ou mesmo celebrar festividades comunitárias.
Sua localização proeminente e sua estrutura imponente também podem ter servido como um símbolo de poder e prestígio para a comunidade que a construiu. Conforme citado anteriormente, restos de torres foram localizadas em Tell – QARAMEL, datando de 9.670 a. C e esta datação torna a estrutura cerca de dois milênios mais antiga que a torre de pedra encontrada em Jericó, que anteriormente se acreditava ser a estrutura de torre mais antiga conhecida no mundo.
A verdade é que dificilmente saberemos a real função dessas torres nesses assentamentos, mas elas representam um testemunho da complexidade cultural das civilizações antigas que habitavam a região.
Também devemos destacar que esses assentamentos não viviam isolados. Havia assentamentos espalhados por todo o crescente fértil, como, por exemplo, Tell Aswad na Síria, Cayonu na Turquia e o assentamento de Jer fel Ahmar, no norte da Síria, que foi inundado pelo lago Assad, após a construção da Barragem de Tishrin.
Apesar de muitas incertezas, o que os estudiosos acreditam é que Jericó foi um dos maiores assentamentos da época e que foi pioneiro no desenvolvimento da agricultura e na domesticação de animais, levando ao início de uma nova era na história humana, caracterizada pelo sedentarismo, pelo desenvolvimento de assentamentos permanentes e pela ascensão das primeiras cidades.
O real motivo dos primeiros assentamentos humanos nunca saberemos, podendo ter sido por defesa, algum culto ou por busca de alimentação, mas o que eles logo perceberam é que juntos eram mais fortes!!!
Dicas de Viagem
Jericó na Palestina, partindo de Jerusalém
Síria - Tell -QARAMEL, 25 km de Alepo na Síria.
Turquia - Gobekli Tepe
Publicado por patipelomundo 22:02 Arquivado em Israel

