Bahrain e seus primeiros habitantes
A Civilização Dilmun
30.11.2023
Já ouviu falar da civilização Dilmun? Se você disse não, confesso que também nunca tinha ouvido falar até colocar os pés no Bahrain.
1 Bahrein 2
No link a seguir um video do canal do Youtube que aborda esse tema
https://youtu.be/BMdJ0UfeMCo?si=onsXNhFWN0hhyHpC
Sempre que visito um lugar fico imaginando como deve ter sido a vida dos primeiros habitantes ou como o ser humano chegou ali. No Bahrain não foi diferente, pois estamos falando de uma ilha ou ilhas no Golfo Pérsico, muito próxima a Arábia Saudita e ao Catar na Península Arábica e do outro lado o Irã. Ao norte ainda destaca-se o Kwait e o Iraque, conhecida como Mesopotâmia, que há 6 mil anos serviu de berço à civilização suméria e durante muitos séculos foi cenário de civilizações urbanas como as da Acádia, Babilônia, Assíria e Caldéia.
2 Localização Bahrein
Minha dúvida no Bahrain era: qual a origem do ser humano que veio parar nessa ilha, basicamente formada por deserto, aqui no Golfo Pérsico? E foi aí que chegamos a civilização Dilmun!!!!
Origem da Civilização Dilmun:
A antiga civilização Dilmun, que floresceu no que é agora o Bahrein, é uma parte fascinante da história da Península Arábica. Embora sua origem seja debatida, muitos estudiosos acreditam que Dilmun possa ter se originado por volta de 3000 a.C. e se estendido até o século I a.C.
3 Placa Dilmun no museu
A maioria dos nomes pessoais do povo de Dilmun são Amoritas, mostrando que uma proporção substancial da população de Dilmun tinha origem Amorita. Um pequeno tablete cuneiforme encontrado perto da muralha da cidade em Ras al-Qalah contém uma lista de três nomes pessoais, todos Amorita. Vimos esse tablete no Museu Nacional do Bahrein.
4 Origem Amorita
Outra evidência da origem Amorita é que fontes escritas nos dizem que os amoritas haviam assumido a liderança política de todas as grandes cidades da Mesopotâmia por volta de 1900 a.C e parece que o mesmo pode ter acontecido em Dilmun (atual Bahrain).
5 Origem Amorita 2
Assim, há indícios razoáveis que os primeiros habitantes do Bahrain vieram, não da Arábia Saudita que está ao lado e é puro deserto, e sim lá da Mesopotâmia!!!!!
Recordando: Os amoritas eram um povo semita originário do deserto da Arábia que haviam se estabelecido na cidade da Babilônia. Por volta de 1900 a.C., esse povo constituiu um império na região, conhecido como Primeiro Império Babilônico, assim os amoritas também são conhecidos como babilônios.
6 Civilizações da Mesopotâmia
Eles tentam diminuir o poder dos governantes das cidades-estados adotados pelos sumérios anteriormente e criam um governo centralizado – com um rei representante de Deus. O rei mais famoso é o rei Hamurabi que cria o primeiro código de leis da História, o código de Hamurabi que está no museu do Louvre em Paris, com base no “olho por olho, dente por dente”.
7 Código de Hamurabi 3
7 Codigo de Hamurabi 4
7 Hamurabi
7 Código de Hamurabi 2
E esse povo que veio da Mesopotâmia se estabeleceu mais ao norte da ilha, provavelmente pela proximidade com sua origem, mas também porque no norte da ilha havia nascentes de águas doce.
8 Mapa do Bahrein
Então, agora que sabemos um pouco da origem do povo do Bahrain e onde eles se estabeleceram, vamos explorar um pouco mais dessa história fascinante.
9 Os amoritas 2
Terra da Abundância – Início dos assentamentos na região Norte
A civilização Dilmun é frequentemente associada a uma terra de abundância, com destaque para seu papel como importante rota comercial na região do Golfo Pérsico. Os habitantes de Dilmun eram conhecidos por seu comércio de pérolas, cobre, pedras preciosas e produtos agrícolas.
10 Bahrain
10 Primeiras evidências
Antigamente as pérolas eram chamadas de “olhos de peixe”. Enquanto os peixes vivos tem uma variedade de cores brilhantes nos olhos, quando cozido o olho passa a ter uma coloração branca leitosa e parecida com uma pérola. As pérolas são mencionadas nos relatórios comerciais dos Dilmuns. Elas são sempre listadas por números e não por peso.
A Influência do elemento Água na Cultura Dilmun
Nascentes de águas doce ocorrem predominantemente no norte da ilha por causa de um padrão de falhas na rocha. A distribuição de sepulturas, assentamentos e templos do inicio do período Dilmun mostra que as pessoas preferiam viver onde a água estava disponível. No Bahrain, a água e não o solo sempre foi o recurso crítico em termos de agricultura.
Dois templos, Umm es-Sujur e Barbar, são associados a fontes de água. Os sacerdotes dos templos podem ter administrado a distribuição de água para as pessoas. O sistema de gerenciamento de água parece ter sido muito efetivo, já que a área colonizada se expandiu consideravelmente no inicio do período Dilmun.
Religião
A cultura de Dilmun era influenciada pelas culturas vizinhas, incluindo a da Mesopotâmia, e isso se refletia em sua arte, escrita cuneiforme e objetos de cerâmica. Dilmun também tinha uma religião distinta, com templos dedicados a divindades locais, como Inzak e Aglibol.
Barbar Temple: é o mais bem preservado dos templos. As cerimônias que ocorreram no templo sugerem sacrifícios. Há um santuário construído em torno de uma fonte de água doce.
11 Barbar Temple
O Barbar Temple é na verdade três templos, um sucedendo o outro no mesmo local e possuem característica arquitetônica comparável aos templos sumérios na Mesopotâmia (terraços com uma plataforma central). Pode-se considerar um templo com sub-templos.
12 Barbar Temple
Cinco templos foram escavados próximos uns dos outros na região fértil do Bahrain como em Sar, Diraz, Umm as-Sujur, Ras Al-Qalat e Barbar. Nenhuma inscrição nos templos diz os nomes dos deuses a quem foram dedicados. Outras inscrições de Dilmun, no entanto, mencionam os deuses Inzak e Enki
Na literatura suméria, observa-se que Dilmun era considerado um lugar único, como se fosse uma terra santa, e relaciona os deuses Inzak e Enki.
Enki, deus sumério da sabedoria e do oceano de água doce, teria trazido nascentes de água para Dilmun e deu vida a Inzak e o fez Senhor de Dilmun. Assim, Inzak parece ter sido um deus nativo e muito provavelmente os templos Dilmun foram dedicados a Inzak e sua consorte Meskilak.
13 Barbar Temple
Tradição Funerária
A característica mais original, única e distinta da cultura Dilmun é a proeminência das tradições funerárias, evidenciadas em vastos campos com montes funerários localizados nas partes norte e oeste do Bahrain e conhecidos como "túmulos funerários de Dilmun." Esses montes são estruturas de terra em forma de cone que abrigavam túmulos e restos mortais de pessoas da sociedade Dilmun.
14 Montes Funerários
Os túmulos funerários de Dilmun são considerados uma parte fundamental da herança cultural e arqueológica do Bahrein e são reconhecidos como Patrimônio Mundial da UNESCO, pela sua singularidade e valor.
Os túmulos funerários também são testemunhas da importância que os Dilmunitas atribuíam à vida após a morte e à preservação da memória de seus antepassados. Hoje, esses montes funerários proporcionam um vislumbre valioso da história antiga do Bahrein e da civilização Dilmun, destacando a riqueza cultural e arqueológica da região.
São estimados em torno de 80.000 montes que capturam a atenção de viajantes e exploradores por séculos. Nas últimas décadas os montes funerários foram submetidos a intensa pesquisa arqueológica que fez a gente conhecer um pouco da dinâmica e da complexidade dos enterros e um pouco mais da cultura Dilmun.
Embora essa tradição não pudesse ter existido isoladamente, foi estabelecido que os costumes de sepultamento documentados no Bahrain são, em muitos aspectos, únicos!!!!
Construído no período de 2250 a 1700 a.C, os túmulos Dilmun do Bahrain refletem a ascensão e a queda da antiga civilização Dilmun na ilha e a ideologia da sociedade que os produziu.
O estudo e a documentação desses registros arqueológicos nos montes funerários demonstram conclusivamente o surgimento de uma realeza no antigo Bahrain e a formação do estado de Dilmun.
A partir de 1700 a.C em diante, a tradição de construir montes funerários acima do solo desapareceu gradualmente. No entanto, a proeminência dos costumes funerários permaneceu central para a vida dos Dilmunites durante a Idade do Bronze (considerada a Idade Média dos Dilmunites) e a idade do Ferro.
Apesar dos grandes desenvolvimentos urbanos desde a década de 1970, os montes funerários preservados são o marco arqueológico mais notável do Reino do Bahrain e o maior conglomerado de túmulos da idade do Bronze encontrados no mundo.
Linha do Tempo dos Dilmun
Formação de Dilmun – 3200 a 2300 a.C
No terceiro milênio a.C, houve um aumento no comércio entre a Mesopotâmia e os países ao longo do Golfo Pérsico e do Oceano Indico. Assentamentos comerciais aparecem, onde os comerciantes amarravam seus navios, descarregavam suas mercadorias de origem e também carregavam seus porões com suprimentos frescos de comida e água.
15 Os primeiros assentamentos
Por volta de 2500 a.C, cobre e estanho foram enviados de Dilmun para cidades distantes quanto Ebla, no norte da Síria. Os textos cuneiformes de Ebla mencionam Dilmun. Dilmun foi usado tanto como o nome de uma área geográfica quanto como um adjetivo que significava nobre.
Pesquisas recentes mostram que as margens do Golfo foram cobertas de manguezais no 3 e 2 milenio a.C. Nos manguezais, pássaros podiam ser caçados e ostras e outros moluscos podiam ser reunidos em grande numero
Uma grande variedade de cerâmicas produzidas por volta de 2.300 a.C foram encontradas.
16 Ceramicas de 2300 aC
17 Ceramica de 2300 aC
Tribal Dilmun – 2300 a 2050 a.C
No início, provavelmente havia apenas um amontoado de casas de pedra ao longo da costa, um local para navios mercantes negociarem cobre e pérolas. Então Dilmun cresceu, construindo seus próprios barcos e sua própria rede comercial. No entanto, a riqueza trouxe um perigo crescente para uma cidade costeira sem muros e a cidade foi atacada e queimada.
Hà evidências que a primeira cidade em Ras al-Oalah foi incediada, talvez por um rei da Mesopotâmia, que tentava controlar o comércio marítimo através do Golfo por volta de 2300 a 2200 a.C.
Foram identificados cerca de 28.000 montes funerários no Bahrain dessa época. Cada monte funerário consistia em uma câmara individual. Vasos de cerâmica fina, importados provavelmente da Babilônia (Iraque) ou de Omã e dos Emirados Árabes são recuperados nesses montes. A presença de alguns Ring Mounds indica enterros para elites ou chefes.
Próximo ao grande campo funerário de Sar estão os restos de um assentamento do Early Dilmun. Haveria uma rua ampla e em ambos os lados da rua haveria uma fileira de casas ou oficinas de pedras idênticas. Um porta levava da rua até um pátio. Vários fornos e lareiras estavam colocados contra as paredes. E outra porta aos fundos levava para fora do pátio. Os limites externos deste assentamento bem organizado ainda não foi descoberto, mas parece que a estrada aponta diretamente para o templo de Sar nas proximidade.
20 Peça encontrada em Sar
Fuligem foi encontrada em alguns potes de esteatita ou pedra-sabão e tais potes podem ter sido usados para misturar perfumes, para cozinhar e talvez para ferver o mel de tâmaras. Muitos desses potes eram lindamente decorados e foram encontrados tanto nos túmulos quanto nos assentamentos. Sugere-se que alguns desses potes foram importados de Omã ou da Arábia
18 Potes
Copos revestidos de betume também foram encontrados em Sar. Tecidos, tapetes e outros itens de folhas de palmeira e de outros materiais vegetais tem uma longa tradição no Bahrain. Esses produtos as vezes eram preservados em betume, gesso ou material similar. Alguns vasos requintadamente revestidos de betume foram recuperados em montes funerários.
19 Pote revestido de betume em Sar
The State of Dilmun – 2050 a 1700 a.c
Agora as cidades começaram a ter muros sólidos e com espaço para expansão. Foi um período de grandes prosperidade, com o rico comércio marítimo. Da Índia ao Mediterrâneo, o selo do comerciante Dilmun era conhecido e respeitado. Templos foram construídos e milhares de montes funerários foram levantados, como os montes reais de ‘Ali.
Embora não haja evidências escritas antes de 1780 a.C, Dilmun provavelmente foi governado por reis desde o início do denominado Early Dilmun. O monumento mais conspícuo desses governantes de Dilmun é o grupo de montes em ‘Ali. A quantidade de trabalho investida na construção desses monumentos é uma prova eloquente do poder de seus construtores.
Por volta de 1780 a.C, o rei de Dilmun parece ter visitado ou mandando algum súdito visitar o governante de Mari na Siria, que ficaria a 1200 km de Dilmun. Os arquivos do palácio em Mari contém uma pequena nota escrita relatando que uma medida de óleo havia sido processada para o rei de Dilmun. Estudiosos imaginam que provavelmente um servo tenha sido enviado a Siria para buscar óleo para o rei, talvez para unção após o banho. Já faziam a oleação tão falada atualmente.
Foram localizados 10 cemitérios com aproximadamente 48.000 montes funerários. A tradição de construção de montes no Bahrain termina mais ou menos com o colapso do estado de Dilmun por volta de 1700 a.C
Por razões ainda desconhecidas, a mineração de cobre cessou em Omã e Chipre assumiu o papel de principal exportador do metal para a Mesopotâmia. Há indícios de que esse fato fez que a principal base para a prosperidade de Dilmun desaparecesse e verificou-se que os montes funerários não estavam mais sendo construídos e os templos caíram em desuso. Um declínio social e econômico parece ter se estabelecido
Middle Dilmun – 1600 a 1000 a.C
Neste período, o Bahrein tornou-se cada vez mais dependente da Mesopotâmia e por volta de 1400 a C os reis cassitas da Babilônia tomaram o poder, cuidaram das muralhas da cidades e construíram enormes dispensas/armazéns de pedra. Depois de 250 anos, a dinastia Kassita na Mesopotamia foi derrubada e seu governo no Bahrain deve ter terminado.
Não sabe muito bem a origem dos cassitas, mas acreditam que eram um povo nômade das terras altas iranianas que, pouco a pouco, tomaram o poder na Mesopotamia e dominam a Babilônia. Acredita-se que Dilmun provavelmente se tornou uma província do reino cassita por volta da época do reinado do rei cassita Agum III (1465 a C)
Observa-se a utilização de túmulos coletivos subterrâneos e de várias câmeras. As sepulturas produzem oferendas de enterro que consistem principalmente em vasos de cerâmica e selos importados da Babilônia – Tradição Cassita.
Late Dilmun – 1000 a 100 a.C
Uma diversidade de costumes de enterro é influenciada pelas tradições predominantes no norte e sul do Golfo Pérsico. A adoção de caixões de barro e vasos funerários por volta de 600 a.C é diretamente inspirada nas tradições babilônicas e aquemênidas. A riqueza do novo comércio de incenso financiou a construção do palácio Ras al-Qalah, cujas paredes ainda estão de pé.
Não podemos esquecer que temos a passagem de Alexandre, o Grande, em terras ao norte e vizinhas ao Bahrain, tanto que já mostramos no nosso canal a queda dos Aquemenidas e do Primeiro Grande Império Persa por Alexandre. No entanto, o Bahrain nunca fez parte das conquistas de Alexandre.
O desenvolvimento do comércio de incenso trouxe o Bahrain para um contato mais próximo com a Arabia Continental e a Arabia estava começando a ter um contato mais próximo com civilizações e religiões de outras partes do mundo.
Publicado por patipelomundo 23:13

