Cara a Cara com a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
Uma das aventuras mais emocionantes da minha vida
11.10.2021
Vamos começar uma expedição rumo ao coração da floresta. Vamos conhecer o cenário de uma odisseia amazônica. Era uma promessa de enriquecimento. Milhares de trabalhadores do mundo todo (mais de 50 nacionalidades) foram atraídos por anúncios que diziam que aqui seria uma oportunidade de vida, mas o que eles encontraram foi o contrário: malária, doenças e mortes.

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Segue o link dessa aventura no meu canal do Youtube
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Por que resolveram fazer uma ferrovia? Não dava para transportar pelo rio? O problema é que o rio tem diversas cachoeiras, que dificultavam a navegação. Para a borracha boliviana ser escoada via Oceano Atlântico a única maneira era navegando pelo rio Madeira-Mamoré, mas muitos barcos naufragavam devido às cachoeiras.

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Teve um acordo entre Brasil e Bolívia, prevendo a construção da ferrovia. O Brasil construiu a ferrovia e em troca recebeu da Bolívia o território do Acre. Mas foram várias mortes.

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Essa história da Madeira-Mamoré é conhecida mais lá fora que no Brasil. Infelizmente a história da floresta amazônica não é ensinada nas escolas e parece que não faz parte da história do Brasil.

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Como surgiu a ideia de construção da ferrovia
Nos idos de 1846 a Bolívia elege a rota fluvial que passava pelos trechos encachoeirados do Rio Madeira para chegar ao Oceano Atlântico e assim aos mercados internacionais.
Alguns historiadores afirmam que quem primeiro pensou em uma ferrovia para superar as cachoeiras do rio Madeira foi o general boliviano Quentin Quevedo, em 1861. A ideia foi defendida pelo engenheiro brasileiro João Martins da Silva Coutinho, funcionário da então província do Amazonas.

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Poucos anos depois, o Paraguai declara guerra ao Brasil, captura o navio mercante Marques de Olinda, invade e ocupa o sul do Mato Grosso.
O governo brasileiro vê a importância da navegação pelo rio Madeira para manter o Mato Grosso integrado e cria um porto militar na região (atual região de Porto Velho, como veremos no item referente ao nome da cidade). D. Pedro II assina um tratado de amizade com a Bolívia para livre utilização dos rios fronteiriços.

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Assim, podemos dizer que a estrada de ferro Madeira-Mamoré teve de certa forma sua origem ligada a Guerra do Paraguai, pois o Paraguai agitou a região e chamou a atenção dos brasileiros para essa área.
Tentativas de Construção
Foram 3 tentativas de construção:
Primeiro pelos ingleses, que abandonaram a floresta em 10 meses sem assentar nenhum trilho. O pesadelo começou em 1872, quando chega a Santo Antônio um grupo de 25 engenheiros da Public Works. Os ingleses trazem equipamentos e materiais para a construção de 36 km de trilhos, mas logo são atacados pela malária, pela varíola, pelos índios e tudo o mais que possamos imaginar. O calor, a umidade da floresta sem fim e os invencíveis mosquitos. Sem contar as cachoeiras tragando os barcos com tripulações inteiras. Em Londres há pânico na Bolsa de valores e a empreiteira informa que os homens morrem como moscas na região.

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Segunda tentativa pelos americanos que construíram só sete quilômetros e no dia da inauguração a locomotiva tombou na primeira curva. Ficou 30 anos tombada. Muitos trabalhadores foram mendigar em Manaus e Belém. Para conseguir trabalhadores, Church, um engenheiro ferroviário e coronel do exército dos Estados Unidos, divulga na imprensa americana que a região era tão bela quanto um paraíso e de muita riqueza. Para se ter uma ideia, em torno de 80 mil operários se apresentaram para pedir emprego no Rio Madeira. Muitos sonhavam com o Eldorado que o coronel Church dizia existir nessa região da Amazônia. Em 1878 zarpa do porto de Filadélfia nos EUA um navio transportando operários, engenheiros e materiais para reiniciar a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, representando o primeiro grande empreendimento técnico-comercial internacional dos EUA. O saldo da aventura foi a morte de aproximadamente 500 homens.

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Terceira tentativa e a mais conhecida foi entre 1907-1912 reiniciada pelo empresário americano Percival Farquhar. Pelas dificuldades encontradas, tanto de construção como de saúde e higiene, ganhou o apelido de "Ferrovia do Diabo”.

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Percival Farquhar contratou Oswaldo Cruz para fazer os preparativos de saneamento e assim evitar a falência que atingiu as empresas anteriores. Desloca também o ponto inicial da construção da estrada, que ficava em Santo Antônio, para o antigo porto do rio Madeira, construído na época da Guerra do Paraguai, e a 7 km abaixo de Santo Antônio, que se tornaria mais tarde a cidade com o nome de Porto Velho.

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Porto-velho acabou tendo o maior hospital de doenças tropicais da américa latina durante a construção da estrada de ferro.
Foi inaugurada em 1912 e ajudou a colonizar as áreas de Porto Velho e Guajará-Mirim com 366 Km de extensão. Nenhuma ferrovia é mais emblemática que a ferrovia Madeira-Mamoré.

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As lendas da Ferrovia
A estrada apocalíptica produz a lenda de que cada dormente representa um operário morto em sua construção. A lenda nasce com os trabalhadores sendo dizimados pelas doenças e muitos dos cadáveres sendo sepultados sob os trilhos.

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Os maquinistas dos trens e viajantes, que depois passavam pelo local durante os 50 anos de funcionamento da ferrovia, contavam histórias de assombrações. Diziam que os fantasmas dos operários mortos apareciam na beira da estrada, fazendo sinais para que o trem parasse para eles entrarem e assim conseguirem fazer a viagem com a passagem comprada com a própria vida. Estivemos cara a cara com os trilhos e podemos não ter visto assombrações, mas a emoção tomou conta e refletia em todo o nosso corpo.

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Quantas Vidas Perdidas
Em torno de seis mil homens morreram durante a sua construção, que custou o equivalente a 28 toneladas de ouro. 90% dos homens contraíram a malária.
Sem contar o falecimento dos nativos durante e depois da construção. Muitos índios morreram eletrocutados tentando roubar os trilhos energizados com 220 volts da ferrovia. No início da construção da ferrovia, a nação Karipuna tinha mais ou menos 10 mil índios e historiadores, como Beto Bertagna, informam que hoje eles não passam de 12.

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Os dias atuais e projetos futuros
A partir de 1981, houve a tentativa de reativar a ferrovia em dois pequenos trechos: um de 7 km em Porto Velho e outro com pouco mais de 10 km em Guajará-Mirim para fins turísticos.
O trecho de 366 km de Porto Velho a Guajará-Mirim, que é uma subida, era feito em dois dias pelo trem e atualmente de carro você consegue fazer em três horas e meia.

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A histórica da ferrovia Madeira Mamoré é recheada de glórias e fracassos e visitando Porto Velho ainda é possível ver vestígios dessa epopeia:
Oficina/Museu Ferroviário Madeira Mamoré
O Museu Ferroviário Madeira Mamoré fica em frente a estrada e teria um importante acervo que preservaria a história da construção da ferrovia, mas infelizmente estava fechado. Disseram que lá poderíamos encontrar itens da antiga estrada, materiais centenários, trilhos e a Locomotiva Coronel Church, a primeira máquina a vapor a chegar na Amazônia.

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Vila Candelária
Na estrada de Santo Antônio, em Porto Velho, a Vila da Candelária é um pequeno paraíso para quem gosta de história, gastronomia regional e belas paisagens. Construída na margem do rio Madeira, no quilômetro 3,5 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a vila tem como origem uma fileira de 11 casas que eram utilizadas por funcionários da ferrovia. Quem visita a vila pode curtir a margem do rio e os diversos restaurantes que há na região. A Candelária tem ainda uma vista privilegiada da hidrelétrica e da cidade de Porto Velho.

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Cemitério da Candelária
O Cemitério da Candelária faz parte da história de Porto Velho. Foi o primeiro da cidade e funcionou de 1910 a 1930, anexo ao Hospital da Candelária, que foi demolido. A unidade de saúde tinha capacidade para abrigar 250 leitos e, segundo alguns historiadores, foi elogiado pelos profissionais da época pelas boas condições da ala cirúrgica. A aproximadamente 500 metros do hospital foi construído o cemitério, para facilitar o sepultamento dos trabalhadores da ferrovia. A maioria dos enterrados no Cemitério da Candelária não tinha parentes em Porto Velho, pois eram de outros países.

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Livros de história afirmam que no cemitério foram enterradas 1532 pessoas de diversas nacionalidades como brasileiros, ingleses, americanos, barbadianos, turcos e espanhóis que participaram da construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Muitos deles, morreram vítimas de Malária. Porém, a quase totalidade dos túmulos não existe mais à ação do tempo. No cemitério encontra uma longa pista de caminhada ao longo dela várias árvores frutíferas e no início tem um lindo cruzeiro.
Cemitério das Locomotivas
No local há locomotivas que por um período foram utilizadas na Ferrovia Madeira Mamoré. As locomotivas estão ao lado dos trilhos, formando um cenário ao mesmo tempo assustador, lindo e emocionante. Ver tudo aquilo, no meio da floresta, sozinhos (pois não encontramos nenhuma pessoa enquanto estivemos por lá) foi simplesmente indescritível. Tentamos nos aproximar das locomotivas, mas havia muitos insetos.

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Impossível não encher os olhos de lágrimas e lembrar que muitos sonhos embarcaram naquelas locomotivas e foram abandonados e mortos no caminho.
Publicado por patipelomundo 19:17 Arquivado em Brasil Tagged porto_velho rondonia

